Você já parou para pensar em como a escolha de uma fonte pode impactar na vida de uma parcela significativa de pessoas? Se a sua resposta foi não, provavelmente você nunca teve dificuldades para ler um texto, seja ele no formato impresso ou digital, mas a verdade é que as fontes são muito mais que elementos visuais, elas conectam as pessoas à informação e precisam seguir algumas regras específicas para que possam cumprir sua função de forma inclusiva.
A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI), define, em seu art. 3º, barreiras nas comunicações e na informação, como sendo “qualquer entrave, obstáculo, atitude ou comportamento que dificulte ou impossibilite a expressão ou o recebimento de mensagens e de informações por intermédio de sistemas de comunicação e de tecnologia da informação”, portanto, o direito à informação clara e autônoma é garantido por lei federal e precisa ser levado mais a sério em várias esferas da nossa sociedade.
Um público específico
O tipo de fonte pode dificultar a leitura de letras e números por pessoas com deficiência visual, dislexia ou deficiência cognitiva. Além disso, pessoas neurodivergentes também podem ser diretamente impactadas por textos que não ofereçam um conforto visual adequado, já que a tipografia influencia diretamente na legibilidade, no cansaço visual e na compreensão.
Pessoas com dislexia ou mesmo as que estão aprendendo a ler, costumam confundir as formas espelhadas, como “b”, “d”, “q” e “p”, e, por isso, essas fontes devem sofrer ajustes no design para que a leitura se torne mais fácil e fluida. Outra confusão muito comum é a que ocorre com caracteres semelhantes, como “i” e “l” ou “j” e i”, sendo mais frequente em condições de baixa visibilidade.
Algumas fontes foram especialmente desenvolvidas para públicos específicos, como pessoas com dislexia, baixa visão e outras condições cognitivas, confira algumas delas:
- Atkinson Hyperlegible: criada pelo Braille Institute para leitores com baixa visão, onde certas letras e números podem ser difíceis de distinguir uns dos outros, esta fonte utiliza princípios de design especiais para diferenciar os caracteres e tornar cada um deles único (download da fonte);
- Luciole: também desenvolvida para pessoas com deficiência visual, pela Université Lumière Lyon 2 e vários institutos franceses (download da fonte);
- Lexend: desenvolvida para minimizar o estresse visual e aumentar a velocidade de leitura (download da fonte);
- Read Regular: elaborada pelo Royal College of Art, em Londres e conhecida como Dyslexia-Friendly Reading, por oferecer a identificação simplificada de cada caractere;
- OpenDyslexic: criada com o propósito de reduzir a confusão entre as letras (download da fonte).
Existem outros exemplos de fontes desenvolvidas para algumas deficiências específicas, mas cada pessoa pode ter preferência ou afinidade bem particulares por algumas delas e, por isso, elas devem ser sempre testadas individualmente.
Principais características
Uma fonte acessível deve apresentar as seguintes características fundamentais:
- Formas abertas e simples;
- Espaçamento adequado;
- Altura adequada de letras minúsculas;
- Distinção clara entre caracteres parecidos.
Para conteúdo digital, as fontes sem serifa são consideradas mais acessíveis. Uma fonte sem serifa é aquela que não possui prolongamentos nos caracteres, ou seja, são mais limpas e facilitam a distinção entre cada elemento, exemplos: Arial, Tahoma, Verdana, Helvetica e Calibri. Já as fontes serifadas ou com serifa, por serem mais elaboradas, podem dificultar a leitura para quem tem baixa visão devido aos prolongamentos nos caracteres, dando a impressão de que um elemento está unido ao outro, exemplos: Times New Roman, Garamond, Georgia, Book Antiqua e Vogue.
Deve-se evitar:
- Fontes script ou cursivas: difíceis de ler rapidamente;
- Fontes condensadas: reduzem a distinção e o espaçamento das letras;
- Fontes decorativas ou estilizadas: podem causar confusão para pessoas neurodivergentes;
- Fonte Comic Sans: apesar de recomendada em alguns contextos de dislexia, não é considerada profissional;
- Utilizar texto todo em maiúsculo (caixa alta) ou em itálico;
- O uso excessivo de texto em negrito;
- Contrastes inadequados.
E talvez você esteja se perguntando como verificar se uma determinada fonte está cumprindo seu papel nos quesitos de acessibilidade, não é mesmo? Eu acredito que a melhor maneira de testar na prática é sempre através dos próprios usuários, nesse caso, perguntando diretamente às pessoas com deficiência (e quanto mais diverso, melhor). Mas também existem ferramentas com essa função de validação, como como WAVE – Web Accessibility Evaluation Tools, axe DevTools e Accessibility Insights.
Espero que esse breve post tenha contribuído de alguma forma para que possamos, através de escolhas simples, porém assertivas, permitir que cada vez mais pessoas tenham acesso à informação de forma autônoma e inclusiva.
Fontes: Perto Digital, CTA – Centro Tecnológico de Acessibilidade e Design (cons) ciência.


